segunda-feira, 5 de maio de 2008

Vozes do Blues com Anna Carla

Anna Carla é uma bluseira carioca que domina a voz como poucos e escreve letras em português como poucos.

Ela tem uma qualidade musical indiscutível e é uma pessoa muito divertida, como vocês vão notar na entrevista. Então vamos a diversão.

TB: Como você foi parar no Blues?

AC: "Eu não tô parada nada!!! AHAHAH To a todo o vapor, isso sim!!! rsss

Olha, Terremoto, na minha vida tudo sempre foi, e eu espero que continue acontecendo assim, uma questão de não deixar as oportunidades passarem... Eu tenho certas escolhas que independem de oportunidades, claro, e elas ficam como potenciais se eu não consigo, ou não posso, conquistar na hora. O blues entrou na minha vida meio assim.

Eu sempre gostei de musica boa, e adorava ouvir a radio fluminense (radio rock do Rio nos anos 80), que sempre tocava clássicos do blues. E desde essa época, ficou marcadinho que um dia eu ia procurar o estilo mais a fundo. Alguns anos depois, eu morei em Illinois (EUA) e fui parar, quase por acaso, no festival de blues de Chicago alimentando essa vontade. Mas não era a hora ainda. Eu tava bem envolvida com outros projetos profissionais e não podia me dar ao luxo de fazer nada alem de ouvir e assistir a ótimos shows. Isso foi piorando, cada vez mais eu era espectadora querendo estar no palco. Daí, mudei de vida profissional de forma que eu pudesse estar sempre na mesma cidade e ter um horário de trabalho mais regular, o que me deu possibilidade de dedicação novamente à musica. Eu voltei a cantar e montei um trabalho pop-rock (pois é, eu e a torcida do Flamengo, ergh). Foi aí que (finalmente, leitor, finalmente) encontrei um bando de músicos loucos que me chamaram pra uma Jam de blues. Malditos!!!! Tudo culpa do Marcos Zeve (banda Deaf Dogs) que me chamou pra ir no estúdio participar de uma Jam!!!! Assistir àquela viagem musical me fez ficar viciada em blues! Um tempo depois, encontrei o Mauricio Fernandes no meio blueseiro, e agora nem que eu quisesse ficar longe do blues eu conseguiria! Mas parada? Parada não!!!! Nem dá! rss."

TB: Além de uma excelente vocalista, você é uma ótima compositora e o que é mais bacana é que você escreve suas letras em português. Qual é seu processo de composição?

AC: "Leitores, eu juro que não rolou um jabá! Terremoto... Menos... Bom, em relação ao vocal, é uma busca permanente. Eu estou sempre insatisfeita com minha voz e sempre tentando melhorar, e eu acho q isso, de uma certa forma, dá certo. Eu tenho aprendido muito com o blues porque é um estilo que envolve e, ao mesmo tempo, exige que você esteja relaxada e tranqüila pra alcançar bons resultados. Isso me permitiu compor. Você tem idéia de quantas letras eu já rasguei????

Como escorpiniana, sou 8 e 80: eu ficava deprê e escrevia uma letra mega-ultra-giga melancólica e no dia seguinte rasgava, porque eu achava super clichê. Na outra semana, eu me achava mais intelectual e escrevia uma letra super “cabeça”. Bobagem! Eu rasgava de novo porque eu achava clichê também. Hoje eu me permito estar mais relaxada e exigir menos, com isso, tem saído letras que eu não me arrependo de entregar pra banda musicar. Estranho, mas esse mecanismo eu aprendi com o blues. O simples pode ser muito melhor. Pode ser um simples que funciona e que mostra nossa alma. E a nossa alma não é banal! Isso é blues. E pra ser verdadeiro em mim, tem que ser em português."

TB: Qual sua visão do blues brasileiro?

AC: "O blues brasileiro tem dois lados, na minha opinião. Um lado de união, de bandas ou músicos que se apóiam. Uma relação de cumplicidade que não tem como dar errado. Cada um tem a sua estrada, sua historia, e não tem como apagar ou construir de um dia pro outro. Quem troca essas experiências sem medo da estrela do outro, só tem a ganhar. E isso tem muito no blues. Ou pelo menos, quem não tem, acaba ficando isolado por ai.

Mas tem o outro lado que, quando aparece, é super perigoso. Achar que o blues deve ser ouvido por quem “entende de blues”. Ou tocado por “quem entende de blues”. E ainda tem quem diga que é estilo musical elitista. Poxa, vida. Elitista???? Os caras que criaram o blues sofriam pra burro na vida, não recebiam educação formal e levavam a platéia a uma interação que envolvia e conquistava. Era popular mesmo, no sentido literal da palavra. Musica do povo. Musica do povo da época. Eles tinham que se virar nos 30 pra agradar e com isso ganhar algum. Será que é isso que o mercado de blues no Brasil acha que é blues? Eu não espero, nem quero, que nenhum musico de blues tenha que sofrer e passar por nada disso pra ser blueseiro. Seria uma distorção achar que essa é a conclusão que eu quero chegar.... O que eu tenho muita duvida é se o blues brasileiro quer ser ouvido mesmo ou se quer se passar por “purista”. Eu admiro trabalhos como o do Jefferson (Gonçalves). Ele faz um trabalho que se orgulha e que curte fazer, mas que apresenta elementos que cativam o ouvinte. O que, na minha opinião, é popular. É popular porque agrada a quem “conhece o blues” e a quem gosta de música e pode não precisa “saber” o que é blues pra gostar. Você sabe, que tem muito guitarrista, que se diz de blues, que se obrigam a fazer a toda musica um ‘belo solo de guitarra’. O “Belo” é questionável, mas pra mim, na musica, o “Belo” é o que arrepia a espinha, ou que te tira da cadeira, ou que te tira uma lagrima. }

É o que te conecta com o publico, com o povo. E isso pode até não acontecer sempre... Tem gente que insiste em encontrar esse ponto mesmo quando não dá, e com isso cansa a platéia. Blues é, na sua concepção, popular. Tem que agradar ao publico. Claro, com seu estilo, sua personalidade, mas conectados com o publico. Sentindo o que o publico sente. Eu acredito que enquanto não se acreditar nisso, e claro investir em divulgação (porque ninguém sai de casa em uma cidade perigosa como as nossas se não souber o que tem e aonde), o público do blues vão ser apenas os músicos “de blues”. "

TB: Como você vê o crescimento da participação das mulheres no blues?

AC: "Não vejo motivo para haver diferenças entre participação das mulheres e homens no blues. E como o blues tem se expandido, é natural o crescimento da participação delas (de nós) no estilo, o que talvez fosse restrito antigamente. Hoje não pode ter isso. Eu admiro mulheres como a Susan Tedeschi, Katie Webster, Diana Krall e Norah Jones que cantam e tocam blues. O que eu particularmente adoraria, mas não tenho esta aptidão de unir o piano (que foi o primeiro instrumento) com a voz.

Aqui no Brasil, eu não tenho visto a participação das mulheres no blues em outros instrumentos que não a voz. O que é uma pena. Talvez porque as primeiras vozes do blues eram cantoras, fique a impressão que as mulheres no blues “deveriam” cantar. Me recuso a pensar assim, ne? Eu canto porque gosto, e gosto de blues. Mas gostaria de ver no mercado nacional mulheres gaitistas, guitarristas, baixistas ou bateristas no blues. Alias, uma banda só de mulheres, como tem no pop-rock, seria um hiper diferencial! E principalmente, com uma vocalista que não queira reproduzir o som das cantoras de blues do século passado, e sim ter o seu próprio timbre! Isso me atrai nas cantoras em geral."

TB: Quais são seus projetos? Você pensa em gravar um trabalho próprio?

AC: "Terremoto, quando eu gravei este EP (que está disponível no palco mp3 e no myspace) a minha idéia era gravar um trabalho próprio. Mas isso tem que vir naturalmente. Eu achei que não era a hora. Não ia ser natural. Eu ainda estou num momento “banda”. Não sei se esse momento passa logo, ou não. Mas eu não me sinto ainda colocando um trabalho na estrada com o meu nome. Mas pode acontecer. Meus projetos? Hoje meu projeto musical é descobrir na Bandanna Blues o som próprio que está se construindo. Estou estimulando os componentes a trazerem sua bagagem eclética pro som do blues. Isso ta ficando bem interessante. Espero que em breve possamos apresentar o resultado dessa formula doida aí. E que ele fique bom! Ah, e popular. E blues. Ahahah "

TB: Anna, muito obrigado por sua participação. Deixo aqui um espaço para seus comentários finais.

AC: "Você foi muito louco de me chamar! Eu que agradeço a oportunidade de falar (tanta bobagem) em publico!!! E eu acredito nessas bobagens, esse é o problema! J Agradeço aos amigos que estão nessa estrada conosco. Vocês de São Paulo que fazem essa troca super interessante conosco: A Black Coffee que abriu esse canal RJ-SP conosco e o Blues com Z que promove uma conexão legal do blues brasileiro no Chat. Aos blueseiros cariocas: especialmente ao Leo Ventura da banda Destilaria, ao Paulo e a Denise, que movimentam o centro da cidade com a Banca do Blues, e as bandas de blues que se apóiam e se ajudam, seja com criticas, com indicação de shows, ou até com um bom papo repassando experiências que já viveram. Cada vez mais isso passa a ser uma constante no nosso meio.

E você leitor, se quiser conhecer um pouco do meu trabalho musical com a Bandanna Blues, está convidado a ir ao nosso site e a ouvir nossas músicas. Muito obrigada pela atenção! Parafraseando a radio blues na veia: “Relaxa, e deixa o blues entrar na sua veia!”."




Veja e escute mais:

5 comentários:

Banca do Blues disse...

Beleza!
Ótima entrevista!

Abraços!

Claudio Ribeiro disse...

Ae, Aninha...mandou bem como sempre !

Parabéns a você e ao patrão !

kkkk

beijos

(Robertão, ce tá se superando a cada entrevista, tô gostando de ver e acompanhar ! abraços brô !)

Zanata disse...

Opa!!
A entrevista ficou DUCA!!
Parabéns Anna!!!
E mais uma vez, o Roberto fazendo uma bela ponte , Sampa-Rio pela "HARMONIA DO BLUES".

Isabel Tavares disse...

Anna... competente e inteligente, assim que devem ser as mulheres que representam o blues. E vc é tudo isso.
Adorei sua entrevista, achei coerente, e com conteúdo. Muito boa mesmo.
É legal saber um pouco mais sobre essa nova amiga carioca : )

A Anna esteve em São Paulo no Carnablues (pode?? carioca fugindo do rio pra vir pra são paulo, no carnaval e pra ouvir Blues???? hehehehe) e fez uma canja com a gente. Detonou!

Querida, desejo tudo de bom pra vc e que o blues esteja sempre "em suas veias"

um beijão

Isabel
www.BlackCoffeeBand.com.br

PS: Robertão detonando, como sempre. Bjs.

Edu Gaspar disse...

Bom conheci a Anna no Carnablues, evento q promovi, achei ela fantastica, e agora com essa entrevista que ela fala o q sempre digo, o blues é pra plateia, e não pra bluseiro, acabou de ganhar um fã incondicional,
um grande beijo e que papai do céu continue a te iluminar, pois seu sucesso esta escrito, sempre lembre de quem paga pra entrar no show e quem compra os cd's, é esse publico que precimos cativar, publico novo essa é a palavra chave
a´te e parabens Roberto por mais uma exelente entrevista