sábado, 13 de junho de 2009

Mestre do Slide com Paulo Silva

Paulo Silva é um músico espetacular, que saiu das nossas terras para se aventurar na Austrália.

Graças à internet encontrei este talento e agora trago ele para mostrar um pouco do seu maravilhoso som.

TB: O Weissenborn Guitar não é um instrumento muito fácil de achar no Brasil. Qual foi seu primeiro contato com o Weissenborn Guitar? Você já tocava outro instrumento?

PF: "Concordo, o Weiss é praticamente inexistente no Brasil. Sempre curti Ben Harper e esses caras, mas nunca tentei tocar o slide. Quando vim para a Austrália comecei a tocar em alguns bares e me apaixonei por Delta Blues e por aqueles caras dos anos 20, 30, 40 e 50. Eu cai de joelhos quando descobri aquela musica.

Eu toco Violão desde os 14 anos de idade, mas eu sempre tocava com a afinação normal... confesso que chegou um momento em que ficou monótono. O Blues veio e começou a mudar a minha musica.

Dai eu me deparei com Blind Willie Johnson, pra mim o maior nome no slide guitar até hoje. Eu tive uma experiência sobrenatural ouvindo aquela musica. Eu tinha acabado de me mudar para a Austrália e estava começando a aprender Inglês.... foi fantástico estar no ano de 2007 e entender a mensagem de um cara que foi gravada em 1921.

Sobrenatural, Blind Willie Johnson era cego, muito pobre e usava a musica para pregar o Gospel...tocava slide com tamanha precisão, decidi "vou tentar!". Foi uma das melhores decisões que eu fiz na minha vida. Toco a apenas dois anos, mas sei que comecei a tocar na hora exata... tudo tem seu tempo."

TB: Como você afina o Weissenborn Guitar? O seu Weissenborn Guitar tem alguma característica especial? Ele é elétrico?

PF: "Então brother, eu uso mais ou menos seis afinações diferentes. Sou apaixonado por CBCCBC, DADDAD, GBDGBD, FAEFAE... tem mais um montão. Consegui achar na Internet mais de 60 afinações diferentes... aí, fui lá e tentei uma por uma, algumas não fazem sentido algum, mas outras são fantásticas!

No momento eu tenho um Marlon Chiquinato Weissenborn Style 4, esse é feito todo em Mogno e tem um som animal!. Eu acabei de adquirir um novo instrumento, é um Oahu Squareneck Guitar, também em Mogno e feito em 1937... esse instrumento é um sonho. Confesso que estava sonhando em adquirir um desses a dois anos, finalmente consegui!. Agora estou me preparando para adquirir um Rickenbacker B Model elétrico, outro de 1937. Esse seria o meu setup perfeito, dois acústicos e um elétrico.

Falando em setup, também uso um BBE Acoustimax para o Weiss e Oahu, é um preamp bem legal. Uso K&K Sound Ultra-Pure Western pickups nos dois, fiquei surpreso com a fidelidade de reprodução do som. Cordas, uso Elixir... elas duram de 3 a 5 vezes mais que as cordas normais, vale a pena."

TB: Como foi que você foi parar na Austrália? Qual é a rotina de shows por ai? Como é o publico?

PF: "Austrália, foi um pouco louco o que aconteceu. Conheci minha esposa no Brasil em 2003, ela voltou para a Austrália enquanto eu fiquei no Brasil até o fim de 2005. Foi aí que mudei pra cá e recomecei a tocar, eu estava meio parado com musica mas quando cheguei aqui vi que as pessoas amam a Musica Brasileira e minha esposa me incentivou a ir e tocar em bares. Confesso que as minhas pernas tremiam ahaha.

A cena musical na Austrália é muito competitiva, mas do que no Brasil na minha opinião. Acredito que pelo fator econômico. Aqui os impostos são mais baixos, então você consegue comprar bons instrumentos, pedais e etc.,. Então, todo mundo que gosta de musica tenta ser musico.

O publico aqui é bem receptivo, quando eu falo:"Meu nome é Paulo Silva, vim do Brasil para tocar algumas musicas para vocês", as pessoas param de conversar e começam a ouvir aquilo que você vai tocar. Tem pessoas aqui em Melbourne que nunca viram um brasileiro antes!, então o publico vem, conversa com você, pergunta sobre o Brasil e etc.,.

Ser brasileiro fez com que algumas portas fossem abertas. Estou sempre tocando Ao Vivo em programas de Radio e já participei em um programa de TV. Resumindo, competitivo mas estamos andando pra frente aos poucos."

TB: Com quem você toca ai na Austrália? Foi fácil montar uma banda?

PF: "No momento toco o meu show sozinho. Eu tenho algumas parcerias com bateristas na região onde vivo, mas apenas uso bateria em shows maiores. Aprendi aqui que fazer contatos é muito, mas muito importante... por isso sempre colaboro nos shows de outros músicos. No momento, quando não toco sozinho, eu estou dividindo o palco com Will Berg, Ewan Cloonan, Eden Parris, Dave Walker Band e The Hannafords."

TB: Você tem algum projeto para lançar um material próprio?

PF: "Sim. Tenho uma quantidade enorme de material para ser lançado. Estou juntando fundos para fazer uma boa pre-produção, gravação, mixagem e espero que até o fim de 2009-inicio de 2010 eu consiga entrar no estúdio e gravar meu primeiro álbum..... tenho que fazer isso logo, já vou completar 30 anos de idade!

Tenho um outro projeto bem interessante. Juntei músicos do mundo todo para lançar um álbum digital com musicas originais. É um projeto que será lançado até o fim deste ano e conta com músicos do Brasil, Franca, Itália, Estados Unidos, Austrália e mais alguns paises que estamos negociando. A idéia é deixar o Álbum disponível para download de graça ou pago. Você escolhe. Com certeza darei mais informações no futuro."

TB: Paulo, obrigado pelo carinho e por dedicar seu tempo respondendo para o Blog. Deixo aqui este espaço para seus comentários finais.

PF: "Eu que agradeço Roberto e leitores do Blog. Me sinto honrado em poder responder as suas perguntas. Gostaria de mandar um abraço a todos no Brasil e pedir a vocês que continuem apoiando os músicos independentes no Brasil e no Mundo.

Aguardo a sua visita no meu website, myspace e youtube channel. Ficaria muito feliz de me corresponder com outros músicos.

Abraço"


Mais....
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Chicago Blues Ladies - Encontro dos talentos do Blues

(Francinni Bessie (SP) , Johaine Droppa (PR) e Hilmara Fernandes (MG))

Curitiba foi o palco de um dos melhores encontros de Blues Nacional deste ano.

No dia 26 de maio de 2009, três das mais importantes bluseiras do Brasil se encontraram no Wonka Bar. As meninas Johaine Droppa (PR), Francinni Bessie (SP) e Hilmara Fernandes (MG) colocaram o bar abaixo fazendo grandes clássicos do blues.

A banda de apoio foi liderada pelo sócio deste Blog, Décio Caetano, um dos cinco melhores guitarristas de Blues do Brasil, segundo a MTV.

Alem do mestre, a banda estava formada por Edu Mella(Baixo), Fernando Rivabem(Bateria) e Márcio Rosa(Percussão).


segunda-feira, 8 de junho de 2009

Nosso Blues perde um Amigo

Edu Soliani faleceu por disfunções hepáticas no sábado 30 de maio de 2.009, com isso o Blues Nacional perde um grande aliado.

Ele foi responsável por divulgar o Blues em seus programas de TV e Rádio Web e mostrar o talento de novos artistas do gênero.

O Edu foi um grande amigo que encontrei nas encruzilhadas do Blues e sei que agora ele está junto dos grandes mestres do Blues.

Paz meu irmão.

Leia mais:

terça-feira, 2 de junho de 2009

Vídeos da Semana com Décio Caetano

Sem duvida nenhuma, Décio Caetano é um dos melhores guitarristas de Blues do Brasil.

Comprove isso vendo os vídeos de sua apresentação em Curitiba, no Wonka Bar.






06/06 - Cracker Blues -Blackmore - Lançamento oficial do CD;


segunda-feira, 4 de maio de 2009

Super Show da Bimbolls Brothers

Vídeo da Semana - 04-05-2009

The Feeling Blues Band, com uma versão muito bacana para Hoochie Coochie Man.




Gaspo "Harmônica" & Banda mandando o som O Sr. da Noite.


domingo, 26 de abril de 2009

Mestres das seis cordas com Leo Ventura

Leo Ventura é um grande músico carioca que conheci em uma dessas noites de Blues.

Além de ser um extraordinário guitarrista é um ótimo vocalista, sem contar que é uma pessoa muito divertida.

TB: Como você iniciou na música e como foi para no blues?

LV:
"Comecei a minha vida ouvindo muito rock brasileiro e MPB. Embora ninguém na minha família fosse músico, minha casa era muito musical. Minha mãe e minha avó sempre ouviam muita (boa) música, como Rita Lee, Lulu Santos, Legião, Engenheiros, Caetano, Gil e etc. Enfim: desde criança curtia reunir os amigos para ouvir música em casa – me interessava muito mais do que jogar bola.... rs

Sempre quis aprender a tocar guitarra e aos 13 anos ganhei o meu primeiro violão. E aí comecei a tocar, sem fazer aulas, tirando músicas um tanto preguiçosamente, pois eu preferia ficar improvisando em cima das gravações do que efetivamente “tirar” as músicas igual a gravação original.

Demorei um pouco até formar a minha primeira banda de verdade e só aos 18 anos passei a tocar na noite do Rio. Ainda nessa mesma época, comecei a ouvir blues compulsivamente e, com a grana que ganhava no estágio de direito que fazia, comprei vários e vários CDs de blues (B.B King, Albert King, Clapton, John Mayall, Robert Johnson e vários outros), eu foram formando a minha personalidade musical.

Nos bares, tocava muita MPB e B-Rock, mas, em casa, sempre tirava cada vez mais e mais o blues e alimentava a vontade de montar uma banda só de blues. Engraçado, desde moleque eu já tinha o nome da minha futura banda de blues na cabeça: DESTILARIA...
Mas esse sonho ficou mais um tempo reprimido, tempo em que gravei um autoral de rock nacional CD com a banda BR-80 (“Sonhos Arquitetados – 2001”), que foi lançado de forma independente. Passada essa fase, eu já não conseguia mais ficar longe do blues e não deu jeito, a DESTILARIA tinha de sair do papel.... rs

Em 2004, chamei os amigos Ronaldo Januário (gaita) e Bruno Leiroza (guitarrista da banda Velho Joe e ex-companheiro na BR-80) e resolvemos botar a DESTILARIA na rua. Marcamos umas datas para fazer um blues acústico num bar só de blues que havia na Lapa (bairro no Centro do Rio), chamado Twenty Pounds Blues Bar. Assim surgiu a banda que segue até hoje ...."


TB: Você é Carioca e está em São Paulo há pouco tempo. Quais as diferenças do cenário blues entre as duas cidades?

LV: "Na verdade, atualmente, são cenários bastante semelhantes. Aqui em Sampa o cenário está muito bacana e o clima das pessoas é muito semelhante ao do Rio. Há uma congregação e amizade muito forte entre as bandas, e isso é muito fundamental para a divulgação do estilo e dos trabalhos de cada um. Black Coffee, Bimbolls Brothers, Summan Brothers, Marafa Blues, Eletric Muddy, entre outras, estão fazendo trabalhos muito legais, abrindo bastante espaço para shows e atraindo um público significativo para os seus shows!

No Rio, hoje, temos um cenário super bacana também! Principalmente, por força da BANCA DO BLUES – www.bancadoblues.com -, capitaneada pelos meus amigos Paulo Vanzilotta e Denise do Amaral, que é um espaço para shows, toda sexta-feira, em pleno Centro do Rio de Janeiro, numa banca de jornal. Só que com um som profissional, segurança e tranqüilidade, com um público médio de 200 pessoas por noite e muito espaço para a divulgação do estilo e das bandas. Na Banca já tocaram músicos renomados do blues nacional como Big Gilson, Maurício Sahady, Rodrigo Nézio, entre outros, e várias bandas que hoje se destacam no cenário carioca como a Mamute, Like a Rolling Stones, Velho Joe, Bandanna Blues,Zanata & Blues Trio, entre outras várias.

Claro que, tanto Rio quanto São Paulo carecem ainda de melhores espaços para o blues e mais apoio para as bandas. Isso no Rio ainda é mais claro, pois são alguns pouco lugares para shows, e sempre os mesmos (Banca do Blues, Bar do Frank, Dragon Jack, em Niterói, e mais dois ou três). E o pior é que os donos dos outros bares não vêem que existe público para o blues. E um público fiel! Mas, enfim, essa é a nossa luta: abrir espaço para a nossa música e continuar, cada vez mais, a unir as bandas, sem competição, para que haja espaço para todos!!!"

TB: O que você procura com sua música?

LV: "Objetivamente: me conectar com as pessoas. A meu ver, a música é forma de expressão mais linda que existe. E também a melhor forma de exprimir sentimentos e fazer amigos.

Tocando um instrumento e cantando você não tem como se esconder. Você fica absolutamente exposto e mostra quem você é. Outra coisa genial é ver como a música de cada um é única. Eu posso tocar as mesmas notas que você, mas cada um tem o seu jeito e sua abordagem, e isso faz com que a música seja ao mesmo tempo única e universal. "

TB: Conte o que estar no palco? Quais sua preocupações enquanto você está tocando?

LV: "O palco é, sem dúvida, o melhor lugar do mundo! Sinceramente, quanto estou tocando, normalmente, eu me “desconecto” um pouco desse mundo, cara. É um prazer inenarrável. Claro que é sempre importante ter um bom som geral, para que você ouça bem cada parte da banda, uma voz bem passada, uma guitarra bem timbrada, mas, passada esta fase... é só aproveitar! rs"

TB: Quais são seus projetos atuais?

LV: "Apesar de estar morando em São Paulo, a DESTILARIA continua firme e forte! A banda toca um blues-rock autoral, com letras em português, mescladas com clássicos do blues e do rock´n roll. Meus comparsas, amigos e irmãos da DESTILARIA são: Maurício Fernandes (guitarrista também da Bandanna Blues e do Garganta Seca), Sergio Gullo (bateria) e Ramon (baixo). Para mais informações da banda, mp3 e vídeos, Clique aqui .

O próximo show da DESTILARIA está marcado para o dia 29.05 (sexta-feira), na Banca do Blues, no Rio, onde faremos uma grande festa para comemorar o meu aniversário, com várias canjas de amigos da banda. Depois, devemos iniciar o processo de gravação do nosso CD, já que temos bastante material autoral pronto para registro!!!

Além da DESTILARIA, tenho um duo de blues em São Paulo, guitarra e gaita, com o meu irmão paulista Oswaldo Moraes (gaitista da Black Coffee). Fizemos a nossa estréia juntos em Março e breve teremos mais shows. O clima do duo é de muito improviso em cima dos clássicos do blues.
Estou ainda montando uma banda em São Paulo que em breve estará na rua também. Enfim... várias atividades, afinal o BLUES NÃO PODE PARAR!!!"

TB: Leo, muito obrigado pela sua contribuição no Blog. Deixo aqui um espaço para seus comentários finais.

LV: "Terremoto, meu caro, quero agradecer o convite para falar aqui no blog. Acompanho seu trabalho há muito tempo, sempre lendo as boas entrevistas e os achados musicais deste espaço (Francini Bessi, Leo Lobão da Mamute, entre outros). Enfim... muito obrigado pelo espaço e pelo carinho.

Quero ainda agradecer aos meus amigos e irmãos do blues (cariocas e paulistas). A galera da DESTILARIA (Maurício, Serginho e Ramon), Anna Carla e Claudio Guerreiro (Bandanna), Paulo e Denise (Banca do Blues), Zanata e Blues Trio, Oswaldão, Bel e Marcião (Black Coffee), Ale Rossi e Frank (Bimbolls), entre outros. O melhor da música são os amigos!

E, em breve, estaremos na área, com mais blues e boa música para todos nós!!! Paz a todos nós!!!"


(Blues da Solidão(música própria) – DESTILARIA)


(DESTILARIA E BIG GILSON - Dimples)

sábado, 18 de abril de 2009

Mestres do Slide com Ótavio Rocha

O poder e a energia do som deste mestre é algo impossível de ser colocado em palavras.

Ótavio Rocha é, sem sombra de duvida, o guitarrista que mais influenciou os amantes de slide no Brasil.

Leia e aprenda, pois esta não é uma simples entrevista, é também uma grande aula de blues.


TB: Quando você iniciou com o Blues Etílicos, o blues no Brasil praticamente não existia. Hoje você é uma referencia no slide nacional e a sua banda foi e é a maior influência para os músicos de Blues no Brasil. Você já parou para pensar nisso? Qual é a sensação de completar 20 anos com uma mesma banda e ter 10 discos gravados?

OR: "Bem, de fato quando começamos, não havia nem de longe um mercado de blues como existe hoje em dia. E esse aspecto de desbravação é uma das coisas que eu mais gosto quando lembro dos anos iniciais, pois tudo era feito de improviso, não sabíamos o que esperar do publico, então a sensação de estar dizendo algo novo era muito boa. Alem disso. A quantidade de informação sobre Blues nos anos 80 era mínima, ou quase nenhuma de maneira que fomos aprendendo na prática.

Nesse sentido. O primeiro festival internacional de Blues feito no Brasil, em 89 foi para nós um momento inesquecível, pois foi a primeira vez que vimos e tivemos contato com artistas como Buddy Guy (para quem abrimos o show e o evento) Albert Collins, Etta James, Junior wells e Magic Slim.

Hoje em dia com o youtube e com tudo o que já se gravou à disposição na internet, é muito mais fácil para quem quer se aprofundar ter acesso as informações necessárias. Mas ao mesmo tempo quem ta começando tem que se cobrar mais, porque só não aprende se não quiser.

Assim, fomos crescendo aos poucos, na estrada mesmo e acho que a razão para estarmos juntos até hoje com na 10 trabalhos lançados, entre cds e Lps, é uma grande afinidade no palco, e acredito que o grande barato de uma banda é saber que o todo é maior que a soma das partes....a sensação é muito boa na medida em que a banda esta sempre buscando novos caminhos, sem perder o referencial do blues, mas estamos sempre olhando pra frente.

Quanto a ser uma referencia do slide fico feliz de ser citado como influencia, acho incrível mesmo, e acho que isso tem dois motivos: ter sido um dos pioneiros do slide, junto com o André Christovam e o Lulu Santos, e ter desenvolvido uma forma de tocar bem específica, o que de alguma forma faz o meu som se destacar."

TB: Como você se interessou pelo Slide? Quais as dificuldades que você encontrou e quais foram suas maiores descobertas?

OR: "Bem, desde os 10 anos de idade eu sou fascinado pelo som do Slide...Nessa época, através de primos que moravam na Europa, eu escutei o Lp Second Winter, e a gravação do Johnny pra Highway 61 to Dylan me deixava assombrado. Eu achava que se eu tocasse daquele jeito eu ia ser o cara mais poderoso do mundo...hehe

No Brasil o primeiro cara que eu ouvi tocar slide foi o Lulu Santos, um tremendo guitarrista com um senso melódico incrível no uso do slide.

No entanto, por mais que eu tentasse passar uma pilha no violão, o som era esquisitissimo e eu achava impossível algum dia tocar daquele jeito.

Depois, em 79 saiu aqui o Muddy Mississipi Waters live, de capa preta.....esse disco eu ouvi até estragar, os solos de slide assustadores do Muddy, a cozinha, a gaita do James Cotton, tudo isso foi uma descoberta incrível pra um garoto de 16 anos!

Ainda assim, foi só em 82 que descobri por acaso um livro numa loja de Copacabana, e nesse livro eu fui apresentado ao maravilhoso mundo das afinações abertas. Quando pus meu violão em E aberto foi como descobrir o sentido da existência! Então creio que minha maior dificuldade foi descobrir que existiam tais afinações e a maior descoberta também! A partir daí eu percebi que tinha muita facilidade pra tocar slide, tinha uma boa afinação e um bom vibrato desde o inicio."

TB: Quais afinações você usa para tocar slide? Você tem uma guitarra só para isso?

OR: "Usei muito A aberto (E C# A E A E) E aberto (E B G# E B E) quando comecei a tocar no Blues Etílicos, até porque não sabia tocar guitarra convencional....fui aprendendo no palco mesmo. No nosso primeiro disco, Blues Etílicos (87) eu só sabia tocar guitarra em afinação aberta, apesar de conseguir fazer uns riffs em afinação normal.

Hoje em dia uso afinação normal pra tudo, tocar slide assim é muito mais difícil, mas te obriga a ser mais preciso, a dar menos notas e a usar muito menos os clichês das afinações abertas, e pra isso uso só a minha velha e fiel SG de um captador só.... ela é perfeita para a minha forma bruta de tocar....além disso não separo o slide do não slide, pra mim é tudo guitarra, não diferencio uma coisa da outra.

O máximo que faço é por o bordão E em D, em musicas como Misty Mountain (no cd Ao vivo, de 2001) e Walking Blues (do nosso ultimo cd Viva Muddy Waters, de 2007) ."

TB: Hoje você mantêm um Blog o "Pensamentos Otavianos"
. O que te levou a criar este Blog? Você acha que com ele você pode passar sua experiência para outras pessoas?

OR: "Bem, sou formado em Ciências Sociais, consegui fazer o curso não sei como durante shows e gravações, então o blog pra mim é mais uma forma de por meus pensamentos relacionados a questões sobre musica em geral em ordem, até porque acho que nem a minha mãe ta lendo ...hehe...porque com certeza se você faz um blog de alguma forma isso te obriga a definir melhor sua visão de mundo porque eventualmente alguém vai ter acesso aquilo."

TB: Ótavio, não tenho como mensurar a honra de entrevistar você, pois te admiro muito. Deixo aqui um espaço para seus comentários finais.

OR: "Bem, Roberto valeu pelo papo um abraço pra você e pra todo mundo"



OR: "Gravação que fiz com o guitarrista Mauricio Saady."


Veja mais:
- Gravadora Delira Blues
- Site Blues Etílicos
- Perfil Orkut Blues Etílicos
- Blog Pensamentos Otavianos

Fotos: Renata Duarte

segunda-feira, 13 de abril de 2009

Mestres das seis cordas Paulo Calarezzo

Tenho a honra de trazer para as páginas do blog um mestre da guitarra. Uma músico que simplesmente brinca com o Blues e o Jazz.

Paulo Calarezzo é um músico completo, pois une feeling e técnica, para chegar em um som maravilhoso e apesar de tudo isso, é uma pessoa simples.

TB:Você é um guitarrista com uma bagagem incrível, pois domina vários estilos musicais. Por este motivo gostaria de saber, o que te faz tocar Jazz e Blues?

PC: "Sempre que comento isso muitos ficam surpresos, cresci numa família de classe média na capital paulista, gente trabalhadora, que me deu uma boa educação a custo de muito suor, porém sem muito tempo para apreciar música, difícil imaginar alguém se tornar músico crescendo em um ambiente pouco musical, mas isso que aconteceu: Meus primeiros contatos com a música foram através da TV, personagens como Adoniran Barbosa, Clara Nunes, Elis Regina, Hermeto Pascoal... nomes que povoavam nossa MPB antes da total banalização cultural dos meios de comunicação, porém o que mais me marcou foram as trilhas sonoras de antigos desenhos animados, onde se encontra muito jazz e blues, incríveis pianos de boogie-woogie e big bands quebrando tudo como na Pantera cor de Rosa. Quando comecei a estudar música, no início da adolescência, me apaixonei por improvisação, o que me aumentou mais ainda a minha paixão pelos estilos."

TB: Em 2004 você lançou o seu Cd “Blues Loud”. O que te fez gravar este CD? Quem trabalhou com você nesse projeto? E podemos esperar algum trabalho novo?

PC: "No início dos anos noventa, além de diversos trabalhos como músico acompanhante e free lancer, me dedicava a um grupo de jazz que era meu xodó, mas as coisas não iam lá muito bem, um amigo meu tocava na Blues Connection e me falou que o blues estava em alta, e que haviam diversos lugares pra se tocar, bom comecei a cantar e a fazer blues e descobri que tinha jeito pra compor no estilo, depois de alguns anos passei por alguns grupos e tocando com muita gente boa decidi montar meu próprio trabalho que culminou neste CD. Nele eu apresento algumas das minhas composições e toco alguns clássicos que me acompanharam ao longo dos anos.


Na produção juntei um verdadeiro mutirão de amigos e colegas, como o baixista Célio Barros que co-produziu o trabalho e cedeu seu estúdio para parte das gravações, bem como Tomi Terahata, meu amigo de infância, e que na época era proprietário do estúdio Groove Digital. No que se refere aos músicos, temos o baixista Pedro Marcondes, o pianista Lobato Acarahyba, ambos tocam comigo ainda hoje no Polissíntese Jazz Group, o baterista Ronaldo Palleze, companheiro de longa data, um ótimo produtor e um dos músicos mais extraordinários com quem já trabalhei, Luiggi Granieri no hammond, que tocava na Blues Keepers, e na gaita, Marcelo Rodrigues que tocou comigo na Urublues, com quem tenho uma grande amizade e costumo de vez em quando fazer dueto de violão e gaita com ele.

Quanto a um novo trabalho, já tenho o conceito de um novo disco totalmente desenvolvido, porém, ainda quero mantê-lo na gaveta. No Brasil o público que aprecia blues ainda está cheio de preconceitos, tem relutância quanto a composições em português e muitos estranham a modernidade do meu trabalho, então A garotada mais é que tem me dado alguns indícios de que as coisas vem melhorando, me parecem mais abertos à nossa mensagem e não estão estigmatizados com aquele conceito de que blues tem de ser aquele som mofado, isso daqui um tempo talvez me traga de volta para ao estúdio."

TB: Quais são seu projetos hoje? Com quem você está tocando?

PC: "Toco em um grupo instrumental que funde jazz, rock, blues, pop e música brasileira, o Polissíntese Jazz Group. Lançamos no ano passado o CD que trás as composições de nosso pianista Lobato Acarahyba, e desde então estamos trabalhando na divulgação e propagação dessa nova estética. A aceitação do público tem nos emocionado e temos muitas perspectivas sérias para o futuro.

No ano passado, a convite do SESI, reuni o meu grupo original, aquele que gravou comigo, foi um grande show e saímos todos empolgados. Não tenho trabalhado com um grupo de blues fixo, o que tem me causado muitos problemas, principalmente pelo pouco tempo que acaba sobrando pra ensaiar. Estou com vontade montar um grupo fixo novamente e voltar à estrada, quem sabe o mesmo time...

Toco também em eventos, às vezes só, mas na maioria em grupo, isso é algo que curto fazer e ajuda a pagar as contas, além das inúmeras aulas que dou... rsrs"

TB: Neste mundo, onde o Rock não é algo que a maioria dos jovens escuta, como é ser professor de música? Qual a faixa etária dos seus alunos? E que tipo de música querem aprender?

PC: "Não tenho o dado de que a galera está escutando, mas meus alunos ouvem basicamente Rock’n’Roll, muitas vezes de péssima qualidade, muita coisa que não possui nada de elaboração, os caras cantam muito mal (mais parecem que gemem), mas tem uma galera que curte rock mais das antigas, e isso não é pouca gente não... Tem gente que curte Led Zepplin, Pink Floyd, Steve Ray e por ai vai... às vezes influencia dos pais, outras guitar hero, mas muitos vem atrás disso.

Leciono para todas as idades, meu aluno mais novo está com oito anos e acho que o mais velho está com uns vinte e seis, ministro aulas de prática em conjunto no Colégio Santa Clara e lá trabalho com alunos de doze a dezoito anos. O que percebo é que os mais novos são mais afetados pela música pop e os mais velhos já são mais roqueiros, mas no que se refere ao repertório se encontra de tudo, mas a música internacional predomina, e infelizmente poucos gostam de blues.

Como professor a coisa que mais incomoda é a falta de dedicação que se vê na garotada, querem evolução sem muito esforço, ai a coisa não caminha legal, a aula fica pesada pra mim e pra eles também, mas para mim como professor o que interessa mesmo é poder trazer algo de bom pra vida desses caras, tanto que quando encontro ex-alunos todos me tratam muito bem e muitos mencionam o quanto as aulas de música foram importantes na nas vidas deles. Pra mim, missão cumprida!"

TB: Paulo, é muito bom ter um músico tão competente no blob, Obrigado. Deixo aqui um espaço para sés comentários finais.

PC: "Eu agradeço muito a lembrança, numa terra sem memória, muitos vêm se esquecendo desses anos que dediquei ao blues e a seu convite me deixou muito lisonjeado. Quero te parabenizar pela iniciativa e deixar aqui minha admiração pelas suas composições e batalha para fazer o blues nacional crescer. Eu estou um pouco de férias do Blues, mas daqui a pouco eu volto...rsrs.

Gostaria também de dar um toque pra galera que ainda não se ligou que o tempo passa e a fila anda... eu adoro Robert Johnson, Skip James, Blind Limon Jefferson e muitos outros, mas se o blues ficasse no purismo não teríamos Muddy Waters, BB King, Buddy Guy, Jimy Hendrix, Stevie Ray e tantos outros que fizeram e fazem a história do blues. O blues nacional hoje já tem cara própria e precisa ser prestigiado, então galera, vamos abrir os ouvidos pq tem muita coisa boa por ai, e não são só gaitistas ou cantoras negras não, são guitarristas, pianistas, bandas, compositores que fazem música em inglês e português, em suma, tem muita coisa legal pra gente curtir!!!

Outro toque que gostaria de dar é de que tem muita gente que ouve música o dia inteiro no rádio, em casa, no carro, debate sobre música com os amigos, porém não tem o hábito de ir a um show ou a um concerto. Pessoal, arte só acontece ao vivo, só conhece a Monalisa quem foi ao Louvre vê-la, só se emociona de verdade com as artes cênicas quem vai ao teatro assistir uma peça, e porque em música um monte de gente acha que o disco é uma obra de arte, é nada!!! Um grupo da pesada faz o máximo para em uma gravação conseguir algo parecido com o que faz ao vivo, e mesmo assim o resultado fica sempre bem aquém, então se você realmente gosta de música é melhor se mexer mais e ir testemunhar ao vivo o que é um puta som!!! Só assim você porá usufruir de verdade a música!!!

Queria mandar um abração pra galera do blog e agradecer a oportunidade de expor minhas idéias.

Muitas felicidades a todos e vida longa à música de raiz, ao feeling, vida longa ao blues!"





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